2017.2 Nº3 (21 a 25/08): Não quero ser feliz. Quero é ter uma vida interessante’ – Contardo Calligaris - FACPED
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25 de agosto de 2017
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2017.2 Nº3 (21 a 25/08): Não quero ser feliz. Quero é ter uma vida interessante’ – Contardo Calligaris

Psicanalista defende que deveríamos nos preocupar em tornar interessante nossa vida de todo dia. Isso implica ter curiosidade, aventurar-se, arriscar mais, lamentar menos e não se proteger das inevitáveis tristezas.

Mais do que buscar permanentemente felicidade máxima, um arrebatamento mágico, deveríamos nos preocupar em tornar interessante nossa vida de todo dia.

É o que defende o doutor em psicologia clínica e psicanalista Contardo Calligaris. Italiano de Milão, depois de mais de duas décadas em conexão direta com o Brasil, já morou na Inglaterra, Suíça, França e nos Estados Unidos e fez muitas viagens. Escreveu mais de dez livros, incluindo dois romances.

Criou até uma série para TV, Psi, no canal a cabo HBO. Diz que, semanalmente, abre mão de “parecer inteligente aos olhos dos pares” e publica toda quinta-feira uma coluna no jornal Folha de S.Paulo. Mais de 100 delas estão no livro Todos os Reis Estão Nus (Três Estrelas). Filmes, fatos, casos de amigos, tudo vira pretexto para traduzir um pouco das teorias da psicanálise, filosofar e provocar reflexão. “Não sou de dourar a pílula”, avisa. Não estranhe, portanto, se sentir um impulso diferente ao terminar de ler esta entrevista. Entrevista concedida a Dagmar Serpa/ revista Claudia.

O que é felicidade hoje?

Não gosto muito da palavra felicidade, para dizer a verdade. Acho que é, inclusive, uma ilusão mercadológica. O que a gente pode estudar são as condições do bem-estar. A sensação de competência no exercício do trabalho, já se sabe, é a maior fonte de bem-estar, mais que a remuneração. Nós temos um ideal de felicidade um pouco ridículo.

Um exemplo é a fala do churrasco. Você pega um táxi domingo ao meio-dia para ir ao escritório e o taxista diz: “Ah, estamos aqui trabalhando, mas legal seria estar num churrasco tomando cerveja”. Talvez você ou o taxista sofram de úlcera, e não haveria prazer em tomar cerveja. Nem em comer picanha.

Mesmo que não vissem problema, pode ser que detestassem as pessoas lá e não se divertissem. Em geral, somos péssimos em matéria de prazer. Por exemplo, estamos sempre lamentando que nossos filhos seriam uma geração hedonista, dedicada a prazeres imediatos, quando, de fato, vivemos numa civilização muito pouco hedonista. Por isso, nos queixamos de excessos e nos permitimos prazeres medíocres ou muito discretos.

Mas continuamos acreditando que ser feliz é ter esses prazeres que não nos permitimos. E agora?

Ligamos felicidade à satisfação de desejos, o que é totalmente antinômico com o próprio funcionamento da nossa cultura, fundada na insatisfação. Nenhum objeto pode nos satisfazer plenamente.

O fato de que você pode desejar muito um homem, uma mulher, um carro, um relógio, uma joia ou uma viagem não tem relevância. No dia em que você tiver aquele homem, aquela mulher, aquele carro, aquele relógio, aquela joia ou aquela viagem, se dará conta de que está na hora de desejar outra coisa. Esse mecanismo sustenta ao mesmo tempo um sistema econômico, o capitalismo moderno, e o nosso desejo, que não se esgota nunca. Então, costumo dizer que não quero ser feliz.. Quero é ter uma vida interessante.

 

Mas isso inclui os pequenos prazeres?

Inclui pequenos prazeres, mas também grandes dores. Ter uma vida interessante significa viver plenamente. Isso pressupõe poder se desesperar quando se fica sem alguma coisa que é muito importante para você. É preciso sentir plenamente as dores: das perdas, do luto, do fracasso. Eu acho um tremendo desastre esse ideal de felicidade que tenta nos poupar de tudo o que é ruim.

O que adianta garantir uma vida longa se não for para vivê-la de verdade? É isso que temos de nos perguntar?

Quem descreveu isso bem foi (o escritor italiano) Dino Buzatti, no romance O Deserto dos Tártaros. Conta a história de um militar que passa a vida inteira em um posto avançado diante do deserto na expectativa de defender o país contra a invasão dos tártaros, que nunca chegam. Mas tem um lado simpático na ideologia do preparo. É que está subentendida a ideia de que um dia a pessoa viverá uma grande aventura. Mas o que acontece, em geral, é que a preparação é a única coisa a que a gente se autoriza.

Então, pelo menos há um desejo de viver uma aventura?

Mas os sonhos estão pequenos. A noção de felicidade hoje é um emprego seguro, um futuro tranquilo, saúde e, como diz a música dos aniversários, muitos anos de vida. Acho estranho quando vejo alguém de 18 anos que, ao fazer a escolha profissional, leva em conta o mercado de trabalho, as oportunidades, o dinheiro… Isso nem passaria pela cabeça de um jovem dos anos 1960.

A julgar pela quantidade de fotos colocadas nas redes sociais de pessoas sorridentes, elas têm aproveitado a vida e se sentem felizes. Ou, como você aborda em uma crônica, hoje mais importante do que ser é parecer feliz?

O perfil é a sua apresentação para o mundo, o que implica um certo trabalho de falsificação da sua imagem e até autoimagem. Nas redes sociais, a felicidade dá status. Mas esse fenômeno é anterior ao Facebook. Se você olhar as fotografias de família do final do século 19, início do 20, todo mundo colocava a melhor roupa e posava seriíssimo. Ninguém estava lá para mostrar que era feliz. Ao contrário, era um momento solene. É a partir da câmera fotográfica portátil que aparecem as fotos das férias felizes, com todo mundo sempre sorridente.

E a gente olha para elas e pensa: “Eu era feliz e não sabia”.

Não gosto dessa frase porque contém uma cota de lamentação. E acho que a gente nunca deveria lamentar nada, em particular as próprias decisões. Acredito que, no fundo, a gente quase sempre toma a única decisão que poderia tomar naquelas circunstâncias. Então, não vale a pena lamentar o passado. Mas é verdade que existe isso.

As escolhas ao longo da vida geram insegurança e medo. Em relação a isso, você diz que há dois tipos de pessoa: os “maximizadores”, que querem ter certeza antes de que aquela é a opção certa, e a turma do “suficientemente bom”. O segundo grupo sofre menos?

Tem uma coisa interessante no “maximizador”: é como se ele acreditasse que existe o objeto mais adequado de todos, aquele que é perfeito. Mas é claro que não existe.

A busca da perfeição não gera frustração, pois sempre haverá algo que a gente perdeu?

Freud dizia que o único objeto verdadeiramente insubstituível para a gente é o perdido. E não é que foi perdido porque caiu do bolso. Ele fala daquilo que nunca tivemos. Então, faz sentido que nossa relação com o desejo seja esta: imaginamos existir algo que nunca tivemos, mas que teria nos satisfeito totalmente. Só não sabemos o que é.

Como nos livrar desse sentimento?

Temos de tornar cada uma de nossas escolhas interessante. Isso só é possível quando temos simpatia pela vida e pelos outros – o que parece básico, mas não é no mundo de hoje. Não por acaso, o grande espantalho do nosso século é a depressão. A falta de interesse pelo mundo e pelos outros é o que pode nos acontecer de pior.

 

Complica ainda mais o fato de, como você já abordou, enfrentarmos um dilema eterno: desejamos a estabilidade e também a aventura. Então, entramos em uma relação ou um emprego, mas sofremos porque nos sentimos presos e achamos que estamos deixando de viver grandes aventuras. Isso tem solução?

Não sei se tem solução. A gente vive mesmo eternamente nesse conflito. Agora, como cada um o administra é outra história. Pode-se optar por uma espécie de inércia constante, que será sempre acompanhada da sensação de que você está realmente desperdiçando seu tempo e sua vida, porque toda a aventura está acontecendo lá fora e, a cada instante, você está perdendo os cavalos encilhados que passam e não passarão nunca mais. Viver dessa maneira não é uma das opções. Mas você pode também, em vez disso, permitir se perder.

Permitir se perder no sentido de transformar a vida em uma eterna aventura?

Mas também nesse caso você terá coisas a lamentar. Eu, pessoalmente, fui mais por esse caminho. Mas o preço foi muito alto. Por exemplo, eu não estive presente na morte de nenhum dos meus entes próximos, porque morava em outro país e sempre chegava atrasado, no avião do dia seguinte. Hoje, por sorte, meu filho – que é grande, tem 30 anos – vive perto de mim. Por acaso, ele decidiu vir para o Brasil. Mas não o vi crescer realmente.

Para ser feliz, enfim, o segredo é não buscar a felicidade?

Isso eu acho uma excelente ideia. A felicidade, em si, é realmente uma preocupação desnecessária. Se meu filho dissesse “quero ser feliz”, eu me preocuparia seriamente.

Fonte: Fronteiras do Pensamento | revista Claudia

5 Comentários

  1. Samuel Matos disse:

    Condicionar nossa felicidade a algo que podemos simplesmente obter é ter uma ideia imediatista do que é felicidade, na minha opinião a felicidade está na jornada, tornar a jornada interessante e saber apreciar o caminho que se está percorrendo minimiza a frustração de não se ter o que foi idealizado no final do percurso. Nas redes sociais eu noto que as pessoas criam aquilo que deveria ser o ideal delas mesmas, uma fantasia, algo que reflete o que elas querem ser, mas não diz quem elas são e nem as ajuda a aceitar e viver com a própria realidade.
    Concordo que não precisamos sempre fazer e procurar o certo, podemos sim buscar o que for interessante, sem nos preocuparmos se vamos ser feliz ou não, devemos aproveitar a viagem.

    ‘É perigoso sair porta afora, Frodo’, ele costumava dizer. ‘Você pisa na Estrada, e se não controlar seus pés, não há como saber até onde você pode ser levado…”’

    (Frodo, citando Bilbo – A Sociedade do Anel, O Senhor dos Anéis).

    “Não devemos nos questionar porque algumas coisas nos acontecem e sim o que podemos fazer com o tempo que nos é dado. ”

    (Gandalf- A Sociedade do Anel, O Senhor dos Anéis).

    “Você sabe que encontrou a felicidade quando vive um momento que não quer que acabe. ”

    Clóvis de Barros Filho

    “Não devemos buscar momentos, eles simplesmente acontecem e temos de estar preparados para vive-los. ”

    Samuel Matos

  2. Pablo Diego A disse:

    De maneira geral, não se há registro literário e histórico do conceito concreto de Felicidade, temos os conceito comum, que é o conceito relativo adotado por nós que é a busca inerente por um estado. Observarmos que a busca da felicidade, segundo os conceitos populares, pode causar frustrações. E o contentamento, será que tem? O homem ele nunca está satisfeito, temos essa tendência e inclinação voltanda para a Ganância, Materialismo, Egoísmo, Orgulho, etc. Somos “auto frustradores” de nossos próprios planos. Lançamos metas, e muitas vezes nos acomodamos com a atual situação, mais não proucuramos pensar no presente. Viver cada dia de modo significativo e dando total importância a cada dia, acredito eu, perceberemos uma nova sensação, uma sensação de uma vida sem a ansiedade. Temos a tendência de antecipar as coisas, será se antecipar tudo na vida, mais na frente a gente ganha mais minutos ou horas, ou dias de vida? -Claro que não. O que esse senhor argumentou, eu o acompanho, eu sempre procurei ter uma vida interessante. Onde eu reconheço minhas falhas e limitações e procuro viver com elas e minimizar meus erros.
    Comentando à respeito das Redes Sociais, sabemos que ali é um local onde pessoas vazias compartilham seus sentimentos forjados e de maneira exacerbada impõe uma imagem quem reflete o conceito comum de “felicidade ” que é a busca inerente de um estado(status).
    Muita riqueza nessa entrevista para estimular a reflexão.

    • Samuel Matos disse:

      Caro colega , existem inúmeros registros literários e históricos sobre o conceito de felicidade , o precursor desta problemática fora Sócrates (469 a.C-399 a.C), mas é Aristóteles quem sistematiza esta questão (384 a.C-322 a.C). Em sua principal obra ética, denominada Ética à Nicômaco, o estagirita tem o seguinte raciocínio: todas as coisas buscam o seu fim (“télos”), que é sinônimo de bem; o fim do homem é a felicidade (“eudaimonia”). A grande questão é o que significa realmente felicidade. Outro bom exemplar é A Idade de Ouro – História da Busca da Felicidade, de George Minois, onde a palavra “busca” no título dá um ótimo rumo ao livro de Minois, afinal a história de como perseguimos a felicidade é mais clara do que as especulações sobre quanto a alcançamos. Minois explica de que modo, ao longo do tempo, tentamos nos aferrar a estados felizes. Sendo assim o conceito concreto de felicidade existe mas como cada um aplica esse conceito o vive , torna-se então abstrato devido a tendencia humana egocentrista , cada um de nós redefine seu conceito de felicidade e o muda dando a este ares metamórficos e transcendentais e que a tonam quase inatingível e impalpável além de inevitavelmente passageira.

      Fonte – Eu e um monte de coisas que leio por ai.

      • Pablo Diego disse:

        Data Venia caro aluno, não se há de maneira resoluta um registro histórico e científico da felicidade. Vós citaste Aristóteles, onde ele escreveu essa obra dedicada a seu filho, sobre a ética que é uma condição também adquirida por osmose, mas antes de citarmos algo referente a efetividade fundamentada de algo precisamos nos atentar que são exemplos isolados e se formos esmiuçar existe divergências entre os conceitos desses autores. Falando sobre o autor citado, muitos filósofos apresentam suas reflexões a partir de suas próprias experiências, a outra fonte a partir da qual a experiência provê de ideias o entendimento é a percepção das operações interiores da nossa própria mente enquanto se debruça sobre as ideias que recebeu. Essas operações, quando a alma sobre elas reflete e as considera, abastecem o entendimento de uma outra série de ideias que não se poderiam receber das coisas exteriores. Tais são as de percepção, pensar, duvidar, acreditar, raciocinar, querer e de todas as diversas ações do nosso próprio espírito, as quais – pouco delas temos consciência e as podemos observar em nós mesmas – recebemos no nosso entendimento tão distintamente como as que temos os corpos que impressionam os nossos sentidos. Todo o homem possui totalmente em si mesmo essa fonte de ideias e, ainda que ela não seja um sentido por nada ter que ver com objetos externos, assemelha-se-lhe muito, todavia, e pode com propriedade ser chamada sentido interno. Mas como à outra fonte de ideias chamo sensação, a esta denomino REFLEXÃO, porque por seu intermédio a mente só recebe as ideias que adquire ao reflectir sobre as próprias operações internas. (…) Estas duas fontes, isto é as coisas externas materiais, como objetos da SENSAÇÂO, e as operações internas da nossa mente, como objetos da REFLEXÃO, são, para mim, os únicos princípios de onde todas as nossas ideias originariamente procedem. Portanto, poderemos dizer se é concreta ou não, quando possuímos o censo comum congruente a comprovação científica e intelectual. À partir destas, podemos dizer se é concreta ou não.

  3. Professor Wagner Queiroz disse:

    Prezados Samuel e Pablo,
    Fiquei muito contente quando li seus comentários. Encontrei nas citações uma maturidade exemplar. Continuem assim e evoluam com a gente.

    Seria muito legal que outros alunos postassem seus comentários e opiniões.

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